Começo com dois trechos que constatam o problema: a autocompreensão deturpada, quando existente, da sociedade brasileira.
“Durante quase quatro séculos nós tivemos uma escravidão. Foram escravizados cerca de cinco milhões de africanos e afrodescendentes. O regime da escravidão era de uma crueldade exemplar. De tal maneira cruel, sobretudo no campo, que o escravo para sair da escravidão só tinha dois caminhos: o suicídio ou a fuga. Hoje nenhuma escola fundamental do Brasil, pública ou privada ensina aos jovens brasileiros o que foi o crime coletivo da escravidão. Para sair da escravidão só tinha dois caminhos: o suicídio ou a fuga. Nós, no dia 13 de maio de 1888, viramos a página. E é isso o que queremos fazer hoje com os horrores do regime militar. Está nos nossos costumes. O pior é que nos consideramos um povo bom, compassivo, generoso” , Fábio Konder Comparato em entrevista à Carta Capital (sublinhei).
“Eu já me convenci, nas palestras a que fui chamado etc., que falar para uma assembleia de jovens ‘AI-5’ e seguir em frente, é perder a palestra, porque é preciso explicar o que foi o ato institucional“, Sepúlveda Pertence, ex-ministro do STF, sobre a impossibilidade do uso eleitoral do 3º PNDH, no programa Painel Globo News.
Exemplificando o diagnóstico acima, a revista Veja traz em sua edição de 09.01.2010 reportagem sobre Joaquim Nabuco, por ocasião do centenário de sua morte.
O início da matéria leva o leitor a pensar que a abolição da escravidão resultou de xaveco do deputado em cima da princesa Isabel:
“Assinada a lei, Isabel voltou-se para o homem alto e elegante que estava a seu lado naquele momento emocionante. ‘Estamos reconciliados?’, perguntou. Como perfeito cavalheiro que era, Joaquim Nabuco acedeu e beijou a mão da princesa“.
O resto da reportagem centra-se na beleza física de Nabuco, seu “intelecto preciso como laser”, suas origens nobres e cavalheirismo (“Sabendo disso [do fim da monarquia], Nabuco prometeu a si mesmo: ‘Eu hei de ser o último dos monarquistas. Preciso bater-me pela princesa, a nossa Lincoln, como me bati pela abolição’. Como homem honrado, cumpriu o prometido”), e até – supresa! – o movimento que “protagonizou”, tendo sido “o mais importante, o mais eloquente e o mais popular dos abolicionistas”.
A autora das linhas tenta declaradamente contrapor-se à história no que esta teria de mais estéril: “a entediante versão mil vezes repetida do treze de maio e seus antecedentes”, e não poupa o leitor de alçar o deputado a “ídolo pop” “metrossexual” que flertou com a “Madonna da época” (Sarah Bernhardt).
Qual o ponto de partida do artigo? A total ignorância da parcela da sociedade brasileira que compra a revista de sua própria história, donde a necessidade de atualizar “dândi” e substituir o termo por “metrossexual”, ou ainda dizer que Sarah Bernhardt foi a Madonna da época. Todo esse esforço comunicativo é voltado para quê? O que o consumidor da informação fornecida pela editora Abril conclui da leitura? Conclui que a abolição foi fruto exclusive da luta pessoal de Nabuco, cujas relações pessoais são rebaixáveis às de qualquer celebridade contemporânea (metrossexualidade, casamento de conveniência, affairs extraconjugais), assunto ao qual se resume o artigo. O vocabulário é atualizado, portanto, para se ver, no passado, uma versão do presente.
O trecho final é sintomático:
“As imagens da escravidão que estão na memória de muitos de nós são as gravuras de Debret – meio apagadas, distantes, coisa de muito tempo atrás. Por isso é sempre um choque descobrir que a ignomínia do trabalho escravo conviveu por bom tempo com a fotografia, uma das novidades tecnológicas que inauguraram a era contemporânea. (…) O suíço Georges Leuzinger congelou no tempo a fazenda arrancada à rocha viva em Jacarepaguá, as crianças negras em andrajos, o menino branco todo arrumadinho no cavalo de brinquedo. Eles todos são nós e nós somos eles (sublinhei)”.
A autora se horroriza, “como pode um avanço tecnológico conviver com uma instituição tão feia quanto a escravidão?”, levando a pensar que submeter alguém à escravidão ainda é crime por puro esquecimento do legislador, visto que ninguém mais o comete em tempos de internet.
“Eles todos são nós e nós somos eles”. Não haveria melhor forma de arrematar o texto! Já vimos que Nabuco não deixa nada a desejar relativamente a fofocas – trocando-se os nomes, poderiam ser reproduzidas na última Caras. A jornalista vai além, no entanto, e suprime as conquistas de negros e negras dos últimos cento e vinte um anos, igualando a sociedade brasileira do século XIX à do século XXI: os brancos permanecem engomados e os negros, maltrapilhos; aqueles, senhores, estes, servos.
Na exata medida em que nega as lutas empreendidas pelos escravos e seus descendentes, a empregada da Abril vive-as, renova-as e, pior do que fizeram os fotógrafos do holocausto brasileiro (Debret et alii), reforça a vitória do racismo; enfim, faz verdadeiras suas próprias palavras, emprestando carne ao seu artifício pseudo-artístico (“Eles todos são nós e nós somos eles”) numa exata self-fulfilling promise.
Não tenho dúvida de que se prestaria homenagem muito maior a Nabuco se rememorássemos os vastos antecedentes da campanha anti-escravagista na celebração da figura, por exemplo, de Luiz Gama, negro livre, vendido pelo próprio pai branco como escravo, que se tornou rábula e foi responsável pela libertação de inúmeros escravos, antecipando em décadas a luta de Nabuco. Um livro interessante para começar é esta minibiografia por Mouzar Benedito.
Para finalizar e retomando as duas citações com que se iniciou este texto, resta óbvia a acuidade do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos ao listar como objetivo estratégico a apuração da verdade sobre a violência institucional durante a ditadura de 1964, por meio de uma Comissão Nacional da Verdade (cf. diretrizes 23 e seguintes, principalmente), a fim de que se combata a presente ignorância do povo brasileiro quanto a seu próprio passado, recente ou nem tanto – e que nunca deixa de nos acompanhar, como bem lembra a Veja.
10/01/10 at 22:50
Ótimo texto, Felipe! Uma bela mostra da atualidade de se falar em uma Comissão Nacional da Verdade; essa postura de abandonar o passado e olhar apenas para frente indubitavelmente é a causa de muitos dos males hoje presentes em nosso país.
Um abraço,
Jefferson Nascimento.